Petição contra a implementação do acordo ortográfico da língua portuguesa de 1990 sign now

Tomámos conhecimento da vontade do governo português de tomar uma decisão acerca do acordo ortográfico da língua portuguesa, assinado em 1990 pelos países de língua oficial portuguesa. Tendo consultado o texto do documento (http://www.necco.ca/faq_acordo_ortografico.htm), não podemos deixar de manifestar o nosso desacordo e a nossa mais profunda indignação acerca das modificações previstas para a ortografia portuguesa que, além de contraditórias, só irão causar mais confusão para quem aprende e, mais importante, fala o português.

O próprio acordo entra em contradição variadas vezes. Está previsto que se retirem os cs e os ps mudos, desprezando a etimologia das palavras, mas também está previsto que se mantenham os hs mudos (homem, harmonia), devido à etimologia das palavras. Onde está a coerência nisto?

Para além deste facto, a eliminação dos cs e dos ps mudos irá causar imensa confusão para quem aprende e fala a língua portuguesa em Portugal, visto que vai contra as regras da pronúncia do português nesse país. Isto porque, apesar de não se lerem explicitamente, os cs e os ps são essenciais para indicar a abertura da vogal que lhes precede. Eis alguns exemplos práticos que o demonstram claramente:

Na palavra cação, o primeiro a é fechado; lê-se, portanto, câ-ção. Na palavra facção, o primeiro a é aberto pela letra c que lhe sucede; lê-se, portanto, fá-ção.
Ora, o acordo estabelece que se escreva facção como se escreve cação: fação. Mas nesse caso, qual a pronúncia correcta desta palavra? Segundo as regras da pronúncia do português de Portugal, deveria ler-se fâ-ção, visto que não há nenhum c que abra a vogal a!

Na palavra adoçar, a letra o tem o valor de u; lê-se, portanto, a-du-çar. Na palavra adopção, a letra o é aberta pela letra p que lhe sucede; lê-se, portanto, a-dó-ção.
Ora, o acordo estabelece que se escreva adopção como se escreve adoçar: adoção. Mas nesse caso, qual a pronúncia correcta desta palavra? Segundo as regras da pronúncia do português de Portugal, deveria ler-se a-du-ção, visto que não há nenhum p que abra a vogal o!

Na palavra tropeção, a letra e é muda; lê-se, portanto, tru-p-ção. Na palavra inspecção, a letra e é aberta pela letra c que lhe sucede; lê-se portanto, ins-pé-ção.
Ora, o acordo estabelece que se escreva inspecção como se escreve tropeção: inspeção. Mas nesse caso, qual a pronúncia correcta desta palavra? Segundo as regras da pronúncia do português de Portugal, deveria ler-se ins-p-ção, visto que não há nenhum c que abra a vogal e!

Evidentemente que poderíamos continuar com um vasto rol de exemplos, mas estes parecem-nos bastante elucidativos das graves consequências que estas modificações irão trazer. É claro que, no Brasil, a eliminação dos cs e dos ps não trouxe nenhuma consequência, porque os brasileiros abrem naturalmente todas as vogais! Os brasileiros lêem, naturalmente, cação como cá-ção e adoçar como á-dó-çar. Mas para os portugueses e também para os africanos dos PALOP e timorenses, que temos tendência para fechar as vogais, necessitamos da presença dos cs e dos ps para que possamos saber como se devem pronunciar essas palavras. (Evidentemente que a eliminação dos cs e dos ps em palavras em que eles não exercem a sua função não causará problemas nestes países são exemplos as palavras árctico, didáctico e óptimo, em que o uso de acento agudo inutiliza o c e o p.)

Estranha e injustamente, o acordo só prevê que este sacrifício da pronúncia em primazia da ortografia se dê em Portugal, Timor e nos PALOP. Porque é que não está previsto no acordo que os brasileiros substituam o acento circunflexo das palavras antônimo, tênis, por acento agudo (antónimo, ténis)? Porque não é assim que os brasileiros pronunciam. E assim continuamos com duas ortografias diferentes no que concerne a estas palavras. Mas não era precisamente com a dupla ortografia que o acordo vinha acabar? Então e porque é que o acordo cede quando está em jogo a pronúncia brasileira e não cede quando está em jogo a pronúncia portuguesa, africana e timorense? Mais uma vez, onde está a coerência nisto?

A implementação do acordo irá causar ainda outros estranhos fenómenos, tais como a eliminação de certos cs e ps em Portugal, mas que se manterão no Brasil, por serem lá pronunciados. Isto acontece em palavras como recepção e infecção: escrevem-se assim no Brasil, pois os brasileiros lêem o p e o c, mas em Portugal passariam a ser escritas receção e infeção (mais uma vez, contradizendo as regras da pronúncia).

No telejornal do passado dia 27 de Novembro, foi entrevistado um perito brasileiro que se questionava: Como se escrevem os documentos das Nações Unidas? Em português do Brasil, em que se escreve teto sem c e ótimo sem p? Ou em português de Portugal, em que se escreve o p e o c, mas não se lêem? As duplas ortografias não existem apenas na língua portuguesa. A língua inglesa tem diferenças de ortografia (naturalmente menos que a língua portuguesa), mas nunca se viu isso como um empecilho, como um defeito do idioma a corrigir a todo o custo. Além do mais, existem profundas diferenças a nível gramatical entre o português de Portugal e o português do Brasil que também se reflectirão na escrita (exemplo: em Portugal escreve-se Porquê?; no Brasil escreve-se Por quê?). Não só o acordo prevê que continue a existir inúmeras diferenças na ortografia, como irá continuar a haver diferenças na gramática dos dois países, que farão com que continue a ser possível distinguir um texto em português de Portugal e um texto em português do Brasil. Então porquê implementar este acordo se ele não cumpre o seu suposto objectivo, o de unificar as ortografias de todos os países de língua oficial portuguesa?

Através dos vários exemplos apresentados, parece-nos ser bem notório e visível que, ao contrário de facilitar, o acordo só vem dificultar ainda mais o ensino, a divulgação e a própria comunicação em português, além de apresentar absurdas incoerências. Uma língua não se reduz apenas à sua ortografia: há uma série de implicações directa e indirectamente inerentes a esta e que têm uma importância basilar. Se realmente se pretende alterar a ortografia, tem necessariamente de se alterar toda uma série de fundações da língua, isto para não falar na tradição etimológica e nas características próprias e intrínsecas de cada dialecto. A pronúncia é uma das, senão a base mais forte e fundamental de um idioma, e este acordo despreza-a e relega-a para um plano de fundo, pondo em causa toda a estrutura da língua e aumentando o risco do seu desmoronamento.

Pelo exposto, pode concluir-se que, não sendo por razões intrínsecas à própria língua que se promove este acordo, ele parece ter um objectivo simplesmente comercial e diplomático. Será razoável reduzir a língua portuguesa, com a sua riqueza e diversidade próprias, a uma mera moeda de troca?

Solicitamos, pois, que seja suspensa a implementação do referido acordo.


Nuno Raimundo

Sign The Petition

Sign with Facebook
OR

If you already have an account please sign in, otherwise register an account for free then sign the petition filling the fields below.
Email and the password will be your account data, you will be able to sign other petitions after logging in.

Privacy in the search engines? You can use a nickname:

Attention, the email address you supply must be valid in order to validate the signature, otherwise it will be deleted.

I confirm registration and I agree to Usage and Limitations of Services

I confirm that I have read the Privacy Policy

I agree to the Personal Data Processing

Shoutbox

Who signed this petition saw these petitions too:

Sign The Petition

Sign with Facebook
OR

If you already have an account please sign in

Comment

I confirm registration and I agree to Usage and Limitations of Services

I confirm that I have read the Privacy Policy

I agree to the Personal Data Processing

Goal
0 / 10000

Latest Signatures

No one has signed this petition yet

Information

Micheal RichardsonBy:
LGTBIn:
Petition target:
Ex.mos Senhores Primeiro-Ministro de Portugal, Ministra da Cultura, Ministro dos Negócios Estrangeiros e Ministra da Educação

Tags

No tags

Share

Invite friends from your address book

Embed Codes

direct link

link for html

link for forum without title

link for forum with title

Widgets