CARTA CAP sign now

Rio de Janeiro, 17 de outubro de 2008


Carta aberta à comunidade do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira Universidade do Estado do Rio de Janeiro (CAP-UERJ)


A UERJ vive uma séria e profunda crise, produto de muitos anos de políticas públicas de desatenção e descaso, de abandono e maltrato por parte de governos estaduais que, descumprindo a lei e suas próprias promessas eleitorais, confiscam o direito da nossa sociedade a uma universidade pública de qualidade, inclusiva e democrática. O Estado do Rio de Janeiro, os que estão dentro e, também, os que estão fora da nossa universidade, sofrem hoje, como no passado, as conseqüências perversas deste abandono. Assim, as reivindicações e as demandas que detonaram a atual greve e mobilização do conjunto dos segmentos da casa (professores, alunos e funcionários) são, sem dúvida nenhuma, justas e necessárias.
Entretanto, depois de quase um mês de paralisação de atividades, devemos fazer um balanço criterioso e responsável acerca dos alcances e do impacto que o atual processo de mobilização teve e terá nas diversas unidades da UERJ. Como pais e mães, responsáveis de alunos e alunas do CAP, como professores e funcionários da UERJ e do próprio Instituto de Aplicação, subscrevemos esta CARTA ABERTA para contribuir com este necessário balanço e, também, para apresentar uma alternativa que, sem desconhecer as justas reivindicações e demandas que se articulam na luta pela defesa da UERJ, possa evitar conseqüências negativas que já vivemos no passado e que podemos repetir no presente.
Um balanço sobre a atual mobilização e greve por tempo indeterminado deve necessariamente partir do reconhecimento que a UERJ é uma instituição complexa, com unidades e setores muito diferentes entre si e profundamente heterogêneos no seu funcionamento, estrutura e organização. Não reconhecer estas diferenças, fazendo um diagnóstico que acabe negligenciando a especificidade de cada unidade, pode contentar nossa vontade militante, mas, certamente, constituir um péssimo insumo para consolidar e ampliar nossos justos objetivos. Um bom diagnóstico não garante o sucesso de qualquer luta democrática. Porém, um diagnóstico errado é, com certeza, o caminho iniludível ao seu fracasso.
O CAP é indiscutivelmente diferente do resto da Universidade. Não é melhor ou pior, menos ou mais importante. Simplesmente é diferente na sua estrutura institucional e normativa, no seu funcionamento, na especificidade do trabalho pedagógico realizado cotidianamente nas suas salas de aula, na relação entre os profissionais que nele trabalham e os alunos e alunas que ali estudam, na construção dos tempos e dos ritmos que regulam o processo de produção e transmissão dos conhecimentos, na disciplina que organiza as práticas pedagógicas, etc. Uma das grandes diferenças que existem entre o CAP e o resto da universidade parece inevitavelmente estrutural: o CAP atende uma população de crianças e jovens entre 6 e 18 anos.
Qualquer balanço do estado da atual greve que desconsidere este fato, além de errado, corre o risco de ser profundamente irresponsável.
Neste sentido, para as crianças e jovens que estudam no CAP, como para as crianças e jovens que estudam em qualquer escola do País, a organização e a vivencia do tempo político e pedagógico é muito mais longo e complexo que para os alunos de uma instituição de ensino superior. Assim, a interrupção do processo pedagógico por um período tão prolongado como o que vivemos na atual greve, gera conseqüências inevitavelmente graves na continuidade da aprendizagem e do processo de apropriação e produção de novos saberes; conseqüências muito mais severas quando se trata de crianças em período de alfabetização e letramento. Num curso superior, o aluno tem certa autonomia para aprender por si mesmo, para recuperar, ainda que com dificuldades os tempos perdidos (seja qual for a causa da perda). Pelo contrário, o aluno de ensino fundamental precisa de uma continuidade no apoio ao seu processo de aprendizagem que, se interrompido, não se recupera num tempo equivalente por uma decisão burocrática ou jurídica. Numa escola de ensino fundamental, seis meses seguidos de trabalho pedagógico não representam o mesmo que dois períodos de três meses interrompidos por um longo período de inatividade. Alem disso, a estabilidade emocional e psicológica, a autoconfiança e a integridade cognitiva e evolutiva de uma criança ou de um adolescente se vê sempre comprometida pela brusca e incompreendida quebra da escolarização e a impossibilidade de habitar um espaço social de importância crucial como é a escola.
Certamente, uma greve prolongada numa escola de ensino fundamental traz conseqüências penosas para toda a comunidade educacional, para além das condições efetivas de recuperar os dias perdidos e completar os 200 dias de aula que exige a lei. As tensões e as pressões vividas e sentidas pelo corpo docente e diretivo da escola são enormes; o desgaste do próprio movimento de resistência é cada vez mais evidente com o é a conseqüente fragilidade da comunidade escolar quando ela se enfrenta a uma polarização interna tão inútil quanto inevitável. Isto, longe de questionar o direito de greve, é uma observação que decorre da longa experiência de mobilizações e lutas que o movimento docente acumulou ao longo dos últimos anos, tanto no Brasil como em toda América Latina.
Desconhecer isto pode ser também uma penosa evidência da nossa dificuldade para aprender das experiências passadas, da nossa historia recente, das nossas conquistas e, também, das nossas derrotas.
Um movimento que justifica as graves conseqüências que a interrupção prolongada do processo de aprendizagem acabará tendo em crianças e adolescentes, como sendo o custo da luta, corre o risco de ser um movimento que perde o rumo da sua própria luta, que erra na identificação do inimigo e que perde um valor que deveria inspirar toda ação democrática: a sensibilidade e o respeito àqueles que nem sempre estão nas melhores condições de expressar suas demandas e necessidades, o cuidado pelo outro, seja qual for sua condição, o amor. Isso, companheiros e companheiras: o amor, porque sem um profundo sentido de amor pelo outro não há luta que faça o menor sentido.
É um desastre ético, que desonra a historia de lutas pelo direito à educação no Brasil, uma greve que parece insensível ao sofrimento e ao desconcerto que sofrem centenas de crianças e adolescentes ao ver sua escola, simplesmente, fechada; que aspira a resolver esta contradição apelando às explicações que os pais devem oferecer aos seus filhos em casa. Esta aspiração de um movimento grevista que pretende que as famílias, no jantar, discutam a atual greve e convençam aos seus filhos e filhas da pertinência e necessidade da mesma acaba tendo como efeito uma curiosa privatização da luta. Curioso movimento este que esquece que, poucos anos atrás, numa conjuntura semelhante, depois de três meses de greve, nada disto foi possível e a única conseqüência visível na nossa instituição foi o desgaste, a apatia e a atitude cínica de alguns poucos que acharam que a luta tinha sido vencida, sem dizer nunca contra ou a favor de quem.
Não parece mais do que um desastre político uma greve que gera um enfrentamento entre país e professores e que, num clima de desgaste progressivo, acaba sendo avaliada por boa parte das famílias, dos professores e funcionários e dos próprios alunos e alunas como havendo sido uma experiência frustrante e banal.
Não há, na história recente das valentes lutas dos movimentos universitários e não universitários na América Latina, nenhum movimento sindical que tenha feito uma greve por tempo indeterminado e prolongado por vários meses numa instituição de educação básica. Inclusive, na história recente das greves em universidades públicas brasileiras, os Colégios de Aplicação não interrompem suas atividades, como é o caso, no Rio de Janeiro, do Colégio de Aplicação da UFRJ e do Pedrinho, nas últimas greves de ambas as instituições.
As greves que aspiram a conquistar as demandas que as motivaram se fazem com a escola pública e desde a escola pública. Sempre pela escola, nunca contra a escola. Quando os alunos e as famílias não conseguem identificar de forma correta o inimigo, tendem a pensar tragicamente que o inimigo é o próprio movimento grevista. E isto é um sinal de derrota, não de sucesso na defesa do direito a uma universidade pública e de qualidade para todos.
Há um mês que o CAP está, simplesmente, fechado. A diferença do resto da UERJ, nele não se pode entrar nem circular. Só funciona a Direção e alguns setores administrativos. O resto está fechado, trancado, abotoado, cheio de nada, invadido pelo silêncio. E, como dizia o grande educador Paulo Freire, quando uma escola está em silêncio nosso coração deve ficar apertado, nossa esperança deve sofrer, porque essa é uma escola quase morta, pobre de toda felicidade, triste, melancólica. É uma escola sem escola.
A luta pela defesa da UERJ é uma luta de todos.
Por isso, em vez de estar paralisado, o CAP poderia contribuir a essa luta assumindo seu papel de formador ativo do espírito crítico e criativo de nossos filhos e filhas. Hoje, mais do que nunca, devemos encher o CAP de alunos, de professores, de funcionários, de país e irmãos. Defender a UERJ supõe defender cada unidade com aquilo que ela tem de mais forte. No CAP nossa potencia é o barulho, o riso e os gritos, a aprendizagem e a dúvida que cada dia se constrói na sala de aula, os silêncios quase imperceptíveis e as descobertas coletivas, o conhecimento produzido e o conhecimento desconstruído num espaço de potencialidade revolucionária: a relação, o vínculo entre os professores e seus alunos. Essa é a matéria mais contundente que deve preencher nossa luta pela defesa da escola pública.
Pensar que o CAP se defende como se defende um curso de pós-graduação é desconsiderar o potencial que possui o trabalho cotidiano na sala de aula numa escola de ensino fundamental e, desta forma, ignorar as mediações políticas e pedagógicas que regulam o trabalho acadêmico numa universidade.
Não poderemos formar alunos e alunas críticos e criativos para a luta pela defesa do direito à educação (deles mesmos e de todos os seres humanos) se abrimos mão de garantir a presença deles na escola, se os trancafiamos na solidão de dias inteiros perante a televisão e os vídeo-games, esperando o horário do jantar, quando o pai e a mãe tentarão contar a eles o sentido revolucionário da gesta vivida por aqueles que defendem à UERJ dos seus verdadeiros inimigos.
Fechar o CAP é começar a perder a luta. Ocupar a escola é começar a recuperar uma força e uma esperança para que este movimento, seja qual for seu resultado, tenha valido a pena.
Como pais e mães, responsáveis de alunos e alunas do CAP, como professores e funcionários da UERJ e do próprio Instituto de Aplicação, subscrevemos esta CARTA ABERTA para contribuir à necessária defesa da nossa Universidade. Para isto pedimos o imediato retorno às atividades nesta unidade, retomando as aulas e definindo um calendário ativo de debates e atividades pedagógicas que, em cada turma e para o conjunto da instituição, analise as causas e as razões que motivaram o presente movimento de resistências, fazendo com que este seja conhecido e discutido por todos e todas, exercendo seu direito inalienável a estar e fazer parte da escola, como oportunidade inadiável para o exercício sempre digno e necessário da sua cidadania.
VAMOS ENCHER O CAP DA LUTA PELA DEFESA DA UERJ!
VOLTA ÀS AULAS JÁ!


Assinam,

Walter Kohan (pai de Valeska, turma 41 e Giulietta, turma 23)
Pablo Gentili (pai de Mateo, turma 51)

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Corine SantanaBy:
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